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Primeiros Socorros Na Estrada: O Que Todo O Motorista Deve Saber

Primeiros Socorros na Estrada: O Que Todo o Motorista Deve Saber

Nos Primeiros Minutos, Cada Segundo Conta

Um acidente de viação pode acontecer com qualquer veículo, a qualquer hora, com qualquer condutor. Seja numa autoestrada, numa nacional ou numa estrada municipal, os primeiros minutos após um sinistro são os mais críticos para a sobrevivência e recuperação das vítimas.

A maioria dos condutores sabe que deve ligar para o 112. Mas poucos sabem o que fazer (e o que não fazer) enquanto esperam pelos meios de socorro. 

Passo 1 — A Regra do PAS

Antes de qualquer outra ação, o condutor deve interiorizar a regra do PAS: Proteger, Alertar e Socorrer. Esta sequência não é arbitrária, é a ordem correta de atuação em caso de acidente.

Proteger

O primeiro instinto de muitos condutores é sair do carro e correr para ajudar. No entanto, ao aproximar-se de um local de acidente sem primeiro garantir a segurança do perímetro, pode transformar um potencial socorrista numa segunda vítima.

Os procedimentos corretos são:

  • Ligar os 4 pistas imediatamente ao imobilizar o veículo.
  • Colocar o colete refletor antes de sair do carro (obrigatório por lei em Portugal).
  • Posicionar os triângulos de sinalização a pelo menos 30 metros do local do acidente (em autoestrada, a distância deve ser maior e, se possível, em ambos os sentidos).
  • Avaliar riscos antes de se aproximar: derrame de combustível, fumo, fios elétricos caídos, instabilidade dos veículos.

Se houver risco de incêndio ou explosão, a prioridade é afastar toda a gente a uma distância segura e aguardar os serviços de emergência. Nenhuma intervenção de primeiros socorros justifica expor outras pessoas a riscos graves.

Alertar

Ligue 112 com a maior brevidade possível. Ao contactar os serviços de emergência, tente fornecer:

  • Localização exata: nome da estrada, número do quilómetro, referências visuais próximas (saída de autoestrada, localidade, pontes, entre outros.).
  • Número de veículos e de vítimas: aparentes e estimadas.
  • Estado das vítimas: conscientes, inconscientes ou presas nos veículos.
  • Outros riscos: combustível derramado, mercadorias perigosas ou condições meteorológicas adversas.

Não desligue sem indicação do operador, ele pode guiá-lo nos primeiros socorros enquanto os meios de socorro se deslocam.

Socorrer

Só depois de protegido o local e acionado o alerta, deve iniciar os primeiros socorros. E mesmo aqui, há uma regra fundamental: não fazer pode ser melhor do que fazer mal.

Passo 2 — Avaliar as Vítimas Corretamente

Ao aproximar-se de uma vítima, a primeira avaliação deve ser rápida e sistemática.

A Vítima Está Consciente?

Fale em voz alta e clara: “Está bem? Pode ouvir-me?” Toque no ombro com suavidade. Se reagir, mesmo que apenas com um gemido ou movimento, está consciente. Se não reagir, está inconsciente e a situação poderá ser maiis grave.

A Vítima Respira?

Observe durante 10 segundos: há movimento do tórax? Consegue sentir ou ouvir a passagem de ar? Se não houver respiração, caso tenha conhecimentos para tal, inicie imediatamente as manobras de reanimação cardiorrespiratória (RCP).

Há Hemorragias Visíveis?

Ferimentos com sangramento abundante requerem compressão imediata. Use o que tiver disponível (um pano limpo, uma peça de roupa) e faça pressão direta sobre a ferida. Não retire o material quando ele ficar embebido, adicione mais por cima e mantenha a pressão.

Passo 3 — Reanimação Cardiorrespiratória (RCP): O Básico que Todos Devem Saber

A paragem cardiorrespiratória é uma das situações mais graves numa emergência de estrada. As compressões torácicas realizadas por uma testemunha antes da chegada do INEM podem mais do que duplicar as probabilidades de sobrevivência.

O protocolo atual da European Resuscitation Council (ERC) para leigos é simples:

30 compressões + 2 insuflações, repetidas continuamente até à chegada de socorro especializado.

Como Fazer as Compressões

  • Posicione a vítima de costas numa superfície plana e firme.
  • Ajoelhe-se ao lado da vítima, à altura do tórax.
  • Coloque o calcanhar de uma mão no centro do tórax (metade inferior do esterno) e a outra mão por cima, dedos entrelaçados.
  • Com os braços esticados e os ombros alinhados sobre as mãos, comprima o tórax cerca de 5 a 6 centímetros.
  • Mantenha um ritmo de 100 a 120 compressões por minuto. 
  • Permita que o tórax regresse completamente à posição inicial entre cada compressão.

As Insuflações

Após 30 compressões, realize 2 insuflações: incline a cabeça da vítima para trás, eleve o queixo, tape o nariz com os dedos e insufle ar pela boca durante 1 segundo, observando se o tórax sobe. Se não se sentir confortável com as insuflações, a RCP só com compressões é preferível a não fazer nada.

Passo 4 — A Posição Lateral de Segurança (PLS)

Se a vítima está inconsciente, mas respira normalmente, não deve realizar RCP. Em vez disso, deve colocá-la em Posição Lateral de Segurança (PLS), também conhecida como posição de recuperação.

Esta posição previne que a vítima aspire vómito ou secreções e mantém a via aérea aberta.

Como Executar a PLS

  1. Ajoelhe-se ao lado da vítima.
  2. Dobre o braço mais próximo de si em ângulo reto, com a palma da mão virada para cima.
  3. Traga o braço mais distante sobre o tórax e coloque o dorso da mão contra a bochecha da vítima (do lado mais próximo de si).
  4. Com a outra mão, dobre o joelho mais distante, mantendo o pé no chão.
  5. Puxe suavemente o joelho dobrado na sua direção, fazendo a vítima rodar para o lado.
  6. Ajuste a cabeça para garantir que a via aérea está aberta.
  7. Monitorize a respiração continuamente até à chegada do socorro.

Atenção: Se suspeitar de lesão na coluna vertebral (nomeadamente em acidentes com embate a alta velocidade, projeção da vítima ou queda), não deve mobilizar a vítima, exceto se houver risco imediato de vida como incêndio ou impossibilidade de manter a via aérea aberta.

Passo 5 — O Que Nunca Fazer numa Emergência de Estrada

Saber o que não fazer é tão importante como saber o que fazer. Alguns erros comuns podem agravar significativamente o estado das vítimas:

Não retire o capacete de um motociclista se não tem formação específica para o fazer. A remoção incorreta pode agravar uma eventual lesão cervical. Só o deve retirar se a vítima não respira e não é possível aceder à via aérea de outra forma, idealmente peça ajuda a uma segunda pessoa.

Não mova a vítima de um veículo sem necessidade absoluta. A mobilização incorreta de uma vítima com suspeita de lesão medular pode causar paralisia permanente.

Não dê água nem alimentos a uma vítima inconsciente ou semiconsciente.

Não aplique garrote para controlar hemorragias. A compressão direta é o método correto na maioria das situações. O garrote só deve ser usado em situações extremas de amputação ou hemorragia incontrolável num membro.

Não abandone a cena até à chegada dos meios de socorro, exceto se o local for demasiado perigoso.

Kit de Primeiros Socorros no Veículo

Em Portugal, a lei não obriga à existência de kit de primeiros socorros a bordo, mas a sua presença é fortemente recomendada e em muitos países europeus é obrigatória. Um kit básico deve incluir:

  • Luvas descartáveis de nitrilo (pelo menos 2 pares);
  • Pensos rápidos de vários tamanhos;
  • Compressas esterilizadas;
  • Ligaduras elásticas;
  • Fita adesiva médica;
  • Tesoura de ponta romba;
  • Cobertor de emergência isotérmico;
  • Máscara de bolso para RCP;
  • Antisséticos (colutório de iodopovidona ou álcool).

Verifique periodicamente os prazos de validade do material. Um kit vencido pode ser ineficaz ou mesmo prejudicial.

Condutores Profissionais: Uma Responsabilidade Acrescida

Os condutores profissionais — seja de mercadorias, de passageiros ou de veículos de transporte especializado — passam mais horas na estrada do que a maioria da população. Esta exposição aumentada traz consigo uma responsabilidade adicional: a probabilidade de ser a primeira testemunha de um acidente é significativamente maior.

Os primeiros socorros na estrada não exigem equipamento sofisticado nem anos de formação médica. Exigem presença de espírito, conhecimento dos passos corretos e a coragem de agir perante a incerteza.

Proteger o local, alertar os serviços de emergência e aplicar os primeiros cuidados às vítimas são três ações ao alcance de qualquer condutor. E em situações onde cada segundo conta, essa preparação faz toda a diferença.

Da próxima vez que estiver na estrada, lembre-se: poderá ser a primeira e a mais importante linha de socorro.

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